A POUPANÇA PRIVADA MOÇAMBICANA PODERÁ ATINGIR NÍVEIS HISTÓRICOS EM 2020 DEVIDO A PANDEMIA DA COVID-19: O que isto implica para o sector empresarial?

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Conforme sugere a teoria económica, a procura agregada é estruturalmente mais flexível que a oferta, pelo que, em períodos de crise, a variação do consumo demostra-se ser relativamente maior que a variação do nível de rendimento. Nesta lógica, a equação Keynesiana, que define a poupança como a parte do rendimento disponível não consumida, sugere que em tempos de crise, a poupança privada tende a crescer significativamente, devido às incertezas em relação ao futuro e aos riscos económicos a si subjacentes.
Este facto ficou evidente durante a crise financeira de 2008/09, quando a poupança dos países ocidentais mostrou uma tendência de crescimento exponencial, tendo aumentado em cerca de 20pp entre 2008 e 2009. Segundo Mody (2012), este aumento da poupança privada durante a crise financeira deveu-se, essencialmente, ao aumento das incertezas associadas a instabilidade macroeconómica que caracterizou aquele período e culminou com a redução significativa do consumo privado, constituindo, assim, uma pirâmide do que na linguagem Keynesiana denomina-se: “poupança para fins precaucionais”.
Nesta pespectiva, diante da recente crise da COVID-19 que assola a economia mundial desde Dezembro de 2019, vários pesquisadores e analistas económicos têm estado a reflectir sobre as suas implicações no consumo, no investimento e na poupança, bem como sobre a sua relação com as expectativas dos agentes económicos e trajectória de crescimento de médio e longo prazo.
No caso da economia dos EUA, segundo os dados do Federal Reserve Bank, em Abril de 2020, a poupança privada ascendeu ao nível histórico de 33%, devido a instabilidade macroeconómica causada pela pandemia da COVID-19, ultrapassando, assim, a cifra mais alta alcançada até então, de 17.3% em 1975. O mesmo cenário assiste-se na economia europeia, onde, segundo o Banco Central Europeu, a poupança privada registou, no primeiro trimestre de 2020, o maior incremento histórico, de 3.5pp face a igual período de 2019. Para o caso de economias em desenvolvimento como Moçambique, as evidências sobre esta temática são bastante escassas. Contudo, segundo a OCDE (2020) , à semelhança do que se verifica nos países desenvolvidos, espera-se que nos países em desenvolvimento a poupança privada aumente significativamente devido, essencialmente, a redução acentuada do volume de consumo privado causada pelos impactos da COVID-19.
De facto, no caso de Moçambique, estima-se que em 2020 o nível de consumo privado possa reduzir em 40% face ao período anterior (2019), de 638 mil milhões para 383 mil milhões de Meticais, de acordo com a CTA (2020). E considerando que em 2020 a economia moçambicana irá crescer em -0.5% , a poupança privada poderá ascender aos 59% em 2020.

Gráfico 1: Evolução da poupança moçambicana (1992-2020) 

Fonte: INE, PWT 9.1 e cálculos do autor

A este nível de poupança, a economia moçambicana poderá atingir um recorde histórico desde 1992, superando, assim, a cifra alcançada em 2015, de 32%, período marcado pelo início da crise da dívida soberana, caracterizado por incertezas e instabilidade macroeconómica.
Este “boom” da poupança privada poderá ser explicado, por um lado, pela redução forçada do consumo privado causada pelas restrições impostas no âmbito das medidas de contenção da propagação da pandemia da COVID-19. Isto é, devido ao encerramento dos estabelecimentos de diversão e restrições no funcionamento dos mercados, o nível de consumo agregado das famílias tende a reduzir. Por outro lado, espera-se uma redução do consumo devido ao risco do desemprego que está associado à redução do nível de actividade e perda de receitas do sector empresarial, sendo que de acordo com a CTA (2020), estima-se que, devido a COVID-19, cerca de 11% da massa laboral empregue no sector privado está em risco.

O que isto implica para o sector empresarial?

Conforme sugerem as evidências empíricas em vários países, enquanto no curto prazo o incremento da poupança privada reduz a procura agregada e o nível de actividade económica, no longo prazo esta contribui para o crescimento económico através da transformação do excesso de poupança em investimento produtivo. Portanto, face a este “boom” da poupança privada que se espera para a economia Moçambicana em 2020, surge a seguinte pergunta: o que isto pode implicar para o investimento empresarial e para o crescimento económico?
Para responder a esta pergunta é preciso analisar a fonte da poupança e a sua aplicação. Conforme ilustra o Gráfico 2, embora existam indicações de um aumento explosivo da poupança privada em 2020, nota-se que este aumento não se reflecte no volume de depósitos, visto que até Julho de 2020, o comportamento dos depósitos totais segue o padrão dos períodos anteriores, sem nenhuma variação acentuada, podendo continuar neste ritmo até o final do ano. Este cenário sugere que os excedentes das famílias não são aplicados no sistema financeiro, devido, por um lado, ao baixo nível de inclusão financeira, e por outro lado, ao facto desde excedente ser apenas estatístico e não material.

Gráfico 2: Evolução dos depósitos e da taxa de juros de depósitos

Fonte: Banco de Moçambique, INE e cálculos do autor

Um outro factor que pode explicar a não aplicação da poupança no sistema financeiro é o baixo retorno do capital que caracteriza este período. Isto é, conforme ilustra o Gráfico 2, as taxas de juros de depósitos têm tendência a reduzir, o que pode induzir os agentes económicos a preferirem manter as suas poupanças “debaixo do colchão”.
Portanto, uma vez que não há indicações de que o possível aumento esporádico da poupança privada possa fluir para o sistema financeiro, dificilmente este poderá ser repassado para o sector empresarial e transformar-se em investimento produtivo que se afigura bastante necessário para a recuperação económica pós COVID-19. Assim, deve-se tomar esta situação como uma lição que deverá orientar os fazedores de políticas na definição de estratégias para melhorar a inclusão financeira e a estrutura da intermediação financeira.

Pela Melhoria do Ambiente de Negócios!!!

Por: Roque Magaia