PAPEL DO SECTOR PRIVADO NA EXPANSÃO DA NUTRIÇÃO: PME´s são responsáveis pela adição de valor

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PME´s são responsáveis pela adição de valor

  • A desnutrição afecta o desenvolvimento de negócios

Na sua qualidade de aglutinador do sector privado nacional, a CTA reconhece o papel que as Pequenas e Médias Empresas desempenham no desenvolvimento e sustentabilidade dos sistemas alimentares no país, na medida em que elas são responsáveis pela adição de valor para tornar a dieta alimentar mais saudável, segura e acessível.

Contudo, a CTA considera que a inserção e eligibilidade das PME`s nas cadeias de valor alimentar ainda é constragida, entre outros factores pela problemática da embalagem, a descrição do produto, incluindo informação nutricional, e certificação de qualidade.
“Como temos vindo a advogar, para além do esforço individual de cada empresa, julgamos que muitos desses desafios poderão ser ultrapassados através da concessão de apoios financeiros que permitam às empresas elevar a qualidade dos seus produtos, processos ou serviços para os níveis exigidos”, referiu o Vice-presidente da CTA, Castigo Nhamane, falando na Conferência Anual da Rede de Empresas para Expansão da Nutrição em Moçambique, subordinado ao tema: “Sistemas Alimentares – O Papel do Sector Privado na Expansão da Nutrição”.
Salientou que, foi neste intuito de prover capacidade e melhoria da competitividade das empresas, em particular os seus associados, que a CTA está em vias de assinar um Memorando de Entendimento com a GAIN, para responder a esses aspectos críticos relacionados com a integração e o contributo das PME`s na cadeia de valor alimentar, desde os provedores de insumos agrícolas, processamento de alimentos, distribuição, e retalho.
De igual modo, por forma a garantir maior eficiência das suas intervenções visando o fortalecimento e competitividade das PME`s, Castigo Nhamane disse que a CTA tem vindo a realizar campanhas de sensibilização em prol ao associativismo.
“As acções que elencamos, bem assim a sua materialização podem ser facilitadas ainda mais se prosseguirmos com a simplificação de procedimentos e remoção de barreiras para fazer negócios, razão pela qual de forma construtiva temos nos engajado, com o Governo, na identificação de políticas e quadro regulamentar mais propício para o efeito”, anotou.

 

Incentivos à produção agrícola e redução das barreiras fiscais
– Adelino Buque, Presidente do Pelouro do Agronegócios e Pescas na CTA

Falando sobre sistemas alimentares, Adelino Buque, Presidente do Pelouro do Agronegócios e Pescas na CTA, reconheceu que, em Moçambique os desafios da segurança alimentar são elevados e se não forem resolvidos de forma pragmática constituem um risco para o desenvolvimento do país, onde cerca de 43% da população sofre de desnutrição crónica e 23% de sobrenutrição.
Adelino Buque salientou o papel do sector privado neste desafio, referindo que “é um dos principais actores no desenvolvimento e sustentabilidade dos sistemas alimentares no país, na medida em que é o principal responsável na dinamização da cadeia de valor do agronegócio e na criação de programas de nutrição sustentáveis por forma a garantir a nutrição da força laboral, melhorando assim o seu desempenho, produtividade e contribuindo para o desenvolvimento da economia.
Para Adelino Buque, o agronegócio e as empresas de serviços alimentares têm um papel preponderante na medida em que influenciam em relação ao que é produzido, processado e consumido.
No entanto, cabe ao Governo aumentar os incentivos à produção agrícola e redução das barreiras fiscais que influenciam as decisões de produção por parte dos produtores e processadores de produtos agrícolas.
“Existe o desafio de criar políticas que incentivem ao financiamento do agronegócios e a subsequente cadeia de valor até ao consumidor. A criação ou reactivação de um seguro agrícola seria uma mais-valia, pois permitiria ao sector bancário disponibilizar recursos sem medo de perdas resultantes de calamidades, pragas e doenças”, salientou, para depois reiterar que o agroprocessamento pode ajudar a processar os alimentos para que sejam mais ricos em nutrientes e minerais, dai a importância de o sector privado envolver-se cada vez mais no desenvolvimento e dinamização desta importante indústria.
Frisou ainda que, o combate a desnutrição crónica é um dos grandes desafios para o desenvolvimento do país e, para fazer face a este cenário, é preciso uma abordagem multi-sectorial e investimentos a longo prazo onde as políticas e estratégias a adoptar têm um papel fundamental.
O crescimento populacional em Moçambique cria cada vez mais pressão sobre os sistemas alimentares, por isso, segundo Adelino Buque, é urgente decidir sobre que estratégias e políticas a adoptar para minimizar os constrangimentos presentes nos sistemas alimentares por forma a garantir uma dieta segura e de alta qualidade para todos.

 

A aposta é na educação nutricional
– Tomáz Salomão, PCA do Standard Bank

Para Tomás Salomão, a aposta deve ser na educação, formação e explicação às comunidades sobre a necessidade de não vender todos os produtos agrícolas de modo a deixar uma parte para garantir a segurança alimentar. “Um dos aspectos importantes é a educação, formação e explicação de que a reserva alimentar é importante, não só para a próxima campanha, mas, também, para garantir a segurança alimentar. Por vezes não é falta de alimentação, mas é saber o que comer, e quando não tem ou não respeita essa informação resulta na desnutrição, enfraquecimento imunológico, aumentando os níveis de malária sobretudo nas crianças. Para ele, o sector privado tem um papel preponderante neste processo de educação.

 

Nutrição no local de trabalho
– Adolfo Correia, Sócio Gerente da Tropigália

Adolfo Correia partilhou a experiência da Tropigália no campo de nutrição no local de trabalho. Referiu que, a dado momento, a Tropigália verificou que os trabalhadores estavam desmotivados e o seu desempenho era fraco. Fez-se um inquérito para perceber o que estava por detrás porque a situação estava a comprometer a produtividade da empresa. Nesse processo, a empresa descobriu que os problemas eram de natureza nutricional. Para Adolfo Correia, nestas situações, as empresas têm que ter uma capacidade de resposta, tal como aconteceu na Tropigália com a introdução de um refeitório no recinto, com refeições compartidas pela empresa de modo que o preço seja acessível. “De uma dificuldade, acabamos encontrando uma oportunidade de negócios. Conseguimos perceber que não havia maior concentração no trabalho, mas com a introdução do refeitório, o rendimento dos trabalhadores melhorou. Para ele, é preciso que as empresas invistam na provisão de refeição diária com produtos nutritivos”.

 

Acesso ao financiamento
– Francisco Ferreira dos Santos, Administrador do Grupo JFS

O acesso ao financiamento é um dos obstáculos apontados por Francisco Ferreira dos Santos, anotando que os moçambicanos têm duas formas de capital: a terra e a mão-de-obra. Referiu que, mesmo sendo portador de DUAT, o mesmo não pode ser usado como garantia bancária. “Enquanto Moçambique tiver recursos limitados, não vai evoluir tanto neste aspecto, porque é preciso financiamento para aquisição dos insumos”. Referiu ainda que, em muitos países, a agricultura é subsidiada pelo Estado, mas em Moçambique não, sendo por isso necessário estudar-se os mecanismos de financiamento à agricultura. “Os bancos não têm apetência pela agricultura, mas a culpa não é deles, quem deve resolver este problema é o Estado”.