PRESIDENTE DO PELOURO DA MULHER EMPRESÁRIA E EMPREENDEDORISMO: Falta informação sintetizada às mulheres empresárias e empreendedoras

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O Pelouro da Mulher Empresária e Empreendedorismo é novo na CTA. Qual é o balanço que faz desde a sua criação, há pouco mais de 10 meses?

– O balanço é positivo; sem dúvidas ainda temos muito trabalho, mas a parte que era mais relevante do momento era identificar por onde íamos começar a trabalhar, e isso já foi feito. Quando entrei no Pelouro, primeiro como membro, depois como Presidente, o desfio era tentar perceber quais são as reais necessidades das mulheres empresárias e todos aqueles que estão envolvidos no empreendedorismo no país, com bastante foco nos jovens. O que tenho vivenciado durante as minhas viagens pelas províncias e o tralhado que tenho vindo a realizar com diferentes pessoas, é que não podemos criar soluções que são para todos, é preciso segmentar as soluções; este é o entendimento que a própria CTA tem. Cada Pelouro procura criar soluções que vão de encontro com as necessidades dos seus membros. Portanto, temos a mulher ao nível rural, mas também tem a mulher urbana; estes dois públicos têm necessidades diferentes. Como é que podemos criar soluções para essas pessoas?! Uma das coisas que tenho estado a fazer agora são visitas aos CEP´s; é de facto uma vantagem a CTA ter os CEP´s porque constituem uma mais-valia. Os CEP´s têm identificado ao nível local as necessidades deles; São grupos que constituem nichos de mercado, que ainda não estão completamente abertos como Maputo está. Portanto, em alguns CEP´s que já visitei, o que verifico é que as pessoas estão a fazer acontecer as coisas, não é como aqui em Maputo onde reclamamos muito a formalização, o licenciamento; o queles eles mais reclamam é o acesso aos mercados, como é podem pôr mais os negócios deles lá fora, criar comércio com os países vizinhos; eles querem ajuda neste sentido e isso é uma coisa que realmente a CTA pode facilitar porque tem plataforma para isso. Tenho também estado a falar com eles sobre o SPX, como é que a plataforma vai funcionar e quais são as vantagens que esta vai trazer para o mundo de negócios. Vejo também uma necessidade de capacitação a nível de gestão interna, muitas têm empresas, algumas até minimamente estáveis, mas não conseguem fazer a escala, elas não estão a conseguir fazer a escala e como é que podemos sustentar. Vejo que é realmente algo que é preciso trabalhar nele, porque as vezes é uma questão de só sentar com a pessoa e procurar perceber em que mercado está inserida, quem são os seus parceiros, porque se calhar os parceiros que tem agora não são os que realmente precisa. Mesmos dentro da própria CTA, temos parceiros que nem sabemos que aquele é um parceiro certo ou possível; Esta é uma das mais-valias que a CTA tem, facilitar e criar os links; Como são tantas associações, temos que começar a estimular o comércio ou negócios entre nós. Temos várias associações de diferentes sectores e tantos players, podemos fazer negócios entre nós. E ao nível do Pelouro da Mulher, estamos a trabalhar com o Ministério do Género, Criança e Acção Social; este Ministério não está muito vocacionado para o desenvolvimento de negócios, isto é, se trabalham com a parte de empreendedorismo é por tabela, mas esta não a sua vocação. O Ministério tem um projecto de desenvolvimento e empoderamento da mulher e o empreendedorismo é uma componente porque ajuda a mulher a ter uma independência financeira. Há alguns projectos que o Ministério tem, alguns dos quais que até já começaram e a CTA, mais uma vez, vai ser parceiro, não só o Pelouro da Mulher, mas outros Pelouros também farão parte destes projectos. É um programa nacional de empoderamento económico da mulher com duração de cinco anos e com grande possibilidade de se renovar por mais cinco anos. Neste âmbito, vamos trabalhar em vários sectores onde a mulher está inserida: no agronegócios, na indústria transformadora, na indústria extractiva; queremos ver como é que podemos potenciar as mulheres que estão nestas áreas. Um dos contrapontos que nós demos como contribuição do Pelouro, foi que eles estavam focalizadas na mulher que está apenas no agronegócios, mas actualmente temos muitas mulheres no agro-processamento e elas devem ser suportadas. Nisso, o Ministério considerou esta nossa contribuição e está a modificar o projecto. O Ministério tem outros projectos com parceiros internacionais que, pela sua natureza, a CTA não pode entrar. Agora, solicitamos ao Ministério para podermos fazer parte do GIRB que é o grupo de doadores onde são discutidas questões de género. Ainda este ano, vamos procurar realizar em conjunto várias conferências; a ideia é que, em vez de ser tudo aqui em Maputo, tentarmos sair para outros pontos do país. O Ministério vai realizar, em princípio em Agosto deste ano, a Conferência Nacional da Mulher, e nós seremos parceiros na organização deste evento. Com o Ministério, temos estado a trabalhar mais na parte de empoderamento e no que diz respeito ao empreendedorismo ainda é muito pouco. Contudo, temos estado a tentar fazer perceber que temos mais áreas em que podemos trabalhar em conjunto; por exemplo, na área de educação financeira, temos parceiro dentro da CTA que pode sustentar isso, entre outras áreas, mesmo ao nível bancário, muitas vezes as mulheres se queixam que não têm acesso ao financiamento, mas isso porque não têm acesso aos produtos bancários que elas podem usufruir. Por exemplo, o Fundo que a CTA está a promover, é preciso perceber como é que aquelas mulheres que não estão capacitadas podem ter acesso a ele; Como é que nós, como Pelouro, podemos ajudá-las para terem acesso. Portanto, temos estado a ajustar a nossa Matriz de actividades porque o Ministério não tem Matriz daquilo que é o foco do Pelouro, mas tem sido aberto em trabalhar connosco. Em termos de empreendedorismo, trabalhamos também com um projecto direcionado para jovens. Ao nível pessoal, sou parceira de uma das empresas privadas que está a trabalhar na área de empreendedorismo mais focado para jovens, uma incubadora que está dentro da Embaixada da Holanda que é direcionada a jovens universitários, e queremos que mais jovens beneficiem deste projecto.

 

Em termos concretos, quais são os obstáculos que as mulheres têm enfrentado no mundo de negócios?
– Neste momento, de modo geral, o maior problema é o acesso à informação sintetizada. O Gabinete de Apoio Empresarial (GAE) da CTA é realmente uma mais-valia para as mulheres que estão dentro da CTA e nas associações membros. O que muitas vezes vemos é que, as mulheres não sabem onde é que podem recorrer quando têm uma certa preocupação ou constrangimento. O acesso à informação, é um dos grandes problemas. E um dos papéis que temos é ajudar as mulheres na formalização dos seus negócios porque as vezes nem sabem como se dirigir ao BAU, portanto, nós ajudamos nisso. 2. Acesso ao financiamento, porque muitas delas pensam que o financiamento é que vai ajudar a resolver os problemas, mas não é isso porque as vezes ainda não nem têm se quer os seus negócios estruturados. Portanto, o problema número um, é o acesso à informação; dois, é estruturar os negócios, porque é preciso ter negócios com um modelo que é sustentável e muitas delas ainda não têm isso. Fazer este tipo de diagnóstico e ajudá-las a criar um modelo de negócios sustentável, deve ser uma das prioridades; também temos a questão de acesso aos mercados, porque muitas delas têm produtos e certificação, mas não conseguem exportar ou colocar os seus produtos em outros pontos de vendas.

 

Qual é a constatação que tem? As mulheres estão a ganhar espaço no mundo dos negócios…
– Sem dúvidas; quanto a isso não tenho dúvidas. Acabo de voltar de Manica e em Dezembro estive em Cabo Delgado, notei que as mulheres estão a ganhar espaço, são as primeiras a querem formalizar os seus negócios, muitas delas até já estão a entrar em outras fases de cadeia de valores, porque em muitos negócios as mulheres estão na parte primária da cadeia de valores, que é a produção ou pouco mais na fase de transformação, mas agora já estão a querer entrar em outras fases como o processamento, o empacotamento até começar a exportar e modificar o produto ainda mais para ter mais competitividade.

 

Qual é o conselho que deixa para as mulheres que querem entrar nos negócios?
– O conselho número um, é conhecer o mercado, porque muitas vezes temos ideias muito boas, mas essa nossa ideia ainda não tem mercado, então a primeira coisa que temos que fazer quando temos uma ideia de negócios, é verificar se temos clientes para aquilo que nós achamos que vai ser o nosso negócio, e verificar a nossa concorrência para ver qual é a oferta que já existe e com base nisso, conseguirmos criar um modelo de negócios sustentável.

Sofia Cássimo, Presidente do Pelouro da Mulher Empresária e Empreededorismo