Provável impacto da visita do Papa no sector do Turismo

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A visita do Sumo Pontífice à qualquer país, é acompanhada de ganhos significativos para a economia receptora e para o sector do turismo em particular. A título de exemplo, a sua visita à Fátima[1] teve um impacto económico avaliado em cerca de 20 milhões de euros e, recentemente em Marrocos[2] chegou a movimentar cerca de 10 mil pessoas de 60 nacionalidades. Em Moçambique, a visita do Santo Padre está prevista para a primeira semana do mês de Setembro próximo, e vai decorrer sob o lema “Esperança, Paz e Reconciliação”.

É dentro deste contexto que, uma reflexão sobre o provável impacto a nível económico, social, cultural e religioso, mostra-se relevante na medida em que esta constitui uma oportunidade para divulgar, além-fronteiras e a todos os níveis, as potencialidades do país.

Embora não existam dados e estudos empíricos, é consensual a nível da teoria económica que a visita do Sumo Pontífice, em termos genéricos, tem um impacto positivo na economia receptora a dois níveis: primeiro, aumenta a procura de bens e serviços internos (em particular os do sector do turismo – restauração e alojamento); segundo, permite a entrada de divisas como resultado do fluxo de entrada de estrangeiros.

O aumento da procura é justificado pela deslocação de peregrinos de vários pontos ao encontro do destino do Papa, o que constitui um desafio paras as comunidades e operadores locais, a provisão de bens e serviços à altura de tal demanda por tratar-se de uma procura sazonal. Entretanto, o exposto acima tem como condição sine qua non o fluxo migratório, e de acordo com os resultados definitivos do Censo 2017, perto de 60% da população moçambicana é cristã, dos quais 45% professam a Igreja Católica. A composição religiosa nos países vizinhos de Moçambique mostra que, mais de 50% da população destes são cristãos, facto que leva a concluir que em termos de previsão haverá entrada de estrangeiros neste período conforme o ilustrado pelo gráfico abaixo.  


[1] A quando da visita do Sumo Pontífice a Portugal em 2017

[2] Segundo cita o jornal do Vaticano.

Fonte: adaptado pelo autor com base nas estatísticas de religião de cada país.

Ao mesmo tempo, do total de cristãos, o gráfico abaixo mostra a percentagem do potencial dos católicos no total dos cristãos dos países vizinhos de Moçambique que poderão se fazer presentes na cerimónia da visita papal entre os dias 4 a 6 de Setembro.

Fonte: adaptado pelo autor com base nas estatísticas de religião de cada país.

O gráfico acima mostra que a África do Sul, sendo o país com maior percentagem do potencial do fluxo migratório, seguido de Tanzânia e Zâmbia, e associado a menor distância entre Maputo[1], África do Sul e Eswatini, espera-se, durante este período, um fluxo migratório significativo. Embora a visita papal seja enquadrada no turismo religioso, esta tem um impacto positivo nos outros segmentos, com destaque para o turismo de lazer e de negócios, e ao mesmo tempo, esta ocasião constitui uma oportunidade para divulgar e fazer marketing das potencialidades turísticas que o país possui.

A título de exemplo, a nível sóciocultural, o momento constitui uma oportunidade para divulgar o património cultural e monumentos religiosos que a cidade de Maputo, em particular, possui, como é o caso da Catedral de Maputo, da Igreja Santa Ana da Munhuana, da Igreja da Polana, do Museu da História Natural, a nossa fortaleza, inclusive a própria Baía de Maputo. Além da divulgação das potencialidades, em termos de monumentos, o momento constitui uma janela para prática dum turismo ético através do respeito e solidariedade, e a revitalização de valores de fraternidade e ajuda mútua entre povos da região.

Embora se reconheça os efeitos positivos daí resultantes, importa realçar que os ganhos na economia serão determinados pela capacidade de resposta por parte dos agentes económicos no seu todo a essa conjuntura económica, em particular na provisão de bens e serviços ao turista por parte do empresariado. Em paralelo, as autoridades responsáveis pela segurança e tranquilidade públicas, assim como actuação dos operadores turísticos no geral, tem um papel fundamental na promoção do turismo nacional, pelo que a promoção de iniciativas de sensibilização (através de pré-campanhas) de modo a revitalizar, no seio dos agentes económicos (agentes da função pública “polícia”, operadores turísticos e guias turísticos) a pratica da ética no atendimento aos turistas e do turismo como forma de garantir a sustentabilidade do crescimento do sector.

De modo geral, espera-se que, com a visita do Papa, haja ganhos no sector do turismo como resultado do aumento da procura de bens e serviços turísticos por conta de entrada de peregrinos para acompanhar a cerimónia a ser dirigida pelo Sumo Pontífice. Ao mesmo tempo, espera-se que este momento crie uma dinâmica na procura de serviços e produtos do turismo religioso e patrimonial, traga consigo externalidades positivas a outros segmentos de turismo, como é o caso do turismo de lazer e de negócios, o que, por seu turno, pode vir a se tornar um factor na sustentabilidade do crescimento do turismo nacional. 


[1] Local do destino do papa conforme a informação da comunidade católica em Moçambique (Programa linha Aberta da Radio Moçambique – Sábado 18 de Maio pelas 11h).

Jose Ngale