Confederação das Associações Económicas de Moçambique

REFLEXÃO SOBRE A INTERVENÇÃO DO BANCO DE MOÇAMBIQUE NO MERCADO CAMBIAL INTERBANCÁRIO

POSSÍVEIS EFEITOS NA ECONOMIA MOÇAMBICANA

O mês de Abril do corrente ano foi caracterizado por uma desvalorização exponencial do USD (Dólar) face a moeda nacional, tendo a taxa de câmbio saído de 67,9 MZN/USD no inicio e atingido 58,2 MZN/USD no fim do mês, significando uma apreciação do Metical de 14,28%. Ainda no mesmo período, para além do Dólar, o Metical ganhou terreno em relação ao Euro e ao Rand, embora para este último a passos relativamente lentos. Esta apreciação repentina do Metical tem vindo a preocupar os agentes económicos, mormente os operadores do comércio externo, provocando incertezas quanto a sustentabilidade desta apreciação ao longo do tempo.

Fonte: Banco de Moçambique

Uma avaliação das vendas líquidas de divisas do Banco de Moçambique no Mercado Cambial Interbancário, sugere que os últimos meses foram marcados por uma forte intervenção do Banco de Moçambique neste mercado, com enfoque para os meses de Fevereiro e Março. Esta quadro, leva a crer que a apreciação do Metical pode ser resultante da condução da política monetária e medidas adoptadas pelo Banco de Moçambique e não necessariamente dos fundamentos da economia.


Fonte: Banco de Moçambique

Este efeito já é notável, na medida em que após uma aceleração da Inflação registada entre Dezembro de 2020 e Fevereiro de 2021 com uma variação média mensal na ordem de 1,35%, no mês de Março onde já se registava uma tendência de apreciação do Metical, a variação da inflação mensal apresentou uma tendência decrescente de 0,86%. No entanto, dado o facto da economia Moçambicana ser maioritariamente importadora, é de se esperar o aumento substancial das importações, o que consequentemente levará a uma maior deterioração da balança comercial. Portanto, esta valorização do Metical irá beneficiar aos empresários que utilizam matéria prima importada, embora possa prejudicar as empresas exportadoras. Entretanto, o sector produtivo nacional ficará ainda mais desprotegido, pois tornam os bens e serviços internos mais dispendiosos em relação aos bens e serviços externos1. Isto, por sua vez, conduz a uma mudança na procura agregada, afastando-a dos bens internos e dirigindo-a para os bens externos. Consequentemente, é expectável um declínio do consumo de bens produzidos internamente e um aumento das importações, que para além de deteriorar a balança comercial levará a menor contribuição do comércio externo líquido para o crescimento do PIB. Não obstante, esta valorização da moeda irá sufocar os exportadores e produtores que irão receber menos pela venda dos seus produtos no exterior.


Fonte: INE, Banco de Moçambique

Contudo, uma variação exponencial da taxa de cambio em curto espaço de tempo, como a que temos verificado nas últimas semanas pode não trazer um benefício genuíno para a economia nacional pois carrega consigo demasiada incerteza ao sector empresarial, sobretudo por esta não reflectir o real desempenho da economia. A economia Moçambicana atravessa um período de recessão, por um lado, devido a crise da pandemia mundial e, por outro lado, pela conjuntura interna desfavorável onde destacam-se as questões de insegurança, nomeadamente, (i) os ataques terroristas em Palma, Província de Cabo delgado, que repeliram o projecto de LNG da área 1, avaliado em US $20 bilhões em Moçambique; (ii) os ataques armados na Zona Centro do Pais, da Junta Militar de ex-combatentes da Renamo; (iii) a onda de sequestros nos últimos 10 anos, que visa sobretudo os empresários, o que é agravado pelo efeito dos ciclones. Estes factos combinados têm impacto negativo sobre os investimentos e a produção das empresas, sobretudo as micro, pequenas e medias que constituem a maioria e têm conduzido a baixas perspectivas de crescimento. Ao considerar que o objectivo do Banco de Moçambique ao usar os instrumentos de política monetária é o controle da inflação, a sua intervenção no MCI através de uma injecção de moeda externa, afigura-se como uma opção não sustentável no longo prazo, na medida em que a economia moçambicana tem uma tendência para que o metical se desvalorize naturalmente, devido a conjuntura económica desfavorável que deriva dos factores acima mencionados.

Portanto, o desejável para a economia é uma taxa de câmbio estável que, acima de tudo reflicta a real dinâmica da economia, não o uso de ajustes artificiais que não sejam sustentáveis no longo prazo.

 

Fonte: INE e CTA

 

Ricardo Sengo e Nadia Hassamo

 

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn