Série “Bancos vs Covid-19” Deterioração da Qualidade dos Activos no Sistema Bancário

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Contextualização

Desde a eclosão da pandemia da COVID-19 no mundo e a declaração do Estado de Emergência (EdE) em Moçambique com o registo dos primeiros caso, várias foram as análises feitas sobre os diversos sectores da actividade económica no objectivo de apurar os impactos directos e as externalidades resultantes de nova envolvente.

A corrida generalizada da análise dos impactos da COVID-19 nos diversos segmentos económicos e sociais, tem focado, de forma desproporcional, no sector real, por ser o mais vulnerável e mediático quanto a captação das variações do nível de actividade económica. Esta excessiva focalização no sector real pode conduzir a conclusões omissas sobre o impacto genérico, especialmente quando se comprova que o sistema financeiro, em particular o bancário para o caso de Moçambique, desempenha um papel substancial na actividade económica (cerca de 6% do PIB segundo INE).

É neste âmbito que decidimos fazer uma breve análise dos impactos da pandemia da COVID-19 no sistema financeiro moçambicano com preliminar enfoque no sistema bancário. Para facilitar a percepção dos impactos serão publicadas três reflexões em separado que retratam a transmissão dos efeitos da COVID-19 na actividade bancária. A primeira reflexão (à presente) versa sobre a qualidade de activos, a segunda versará sobre os custos estruturais e eficiência técnica sendo a última relativa a resiliência do sistema e prespectivas a curto médio prazo.

Análise da Variação da Qualidade de Activos

Bancos Representativos

Para análise do impacto da COVID-19 no sector bancário durante o EdE, foram selecionados 4 bancos com base no estabelecido no Aviso nº 10/GBM/2018, de 22 de Outubro, quanto as Instituições de Crédito Domésticas de Importância Sistémica (D-SIBs). A escolha desta classificação prende-se ao facto de que a sua pontuação ponderar todos os aspectos considerados na análise de hegemonia de uma instituição bancária e a sua relação com outras. Assim sendo os bancos representativos são:

InstituiçãoPontuaçãoDiscrição
D-SIB1266Banco de maior importância sistémica
D-SIB2228Banco com a segunda maior importância sistémica
D-SIB3144Banco com a terceira maior importância sistémica
QD-SIB110Banco com importância quase sistémica

Fonte: Banco de Moçambique

Qualidade de Activos

A luz do disposto no Aviso nº 16/GBM/2017, de 22 de Setembro, conjugado com a Circular n.º 02/EFI/2017 a análise sobre a qualidade de activos pode ser feita com recurso a três rácios nomeadamente: (i) Rácio de Crédito Vencido Até 90 dias, (ii) Rácio de Crédito em Incumprimento (NPL) e (iii) Rácio de Cobertura do NPL. Por seu turno, o Aviso n.º 2/GBM/2013 estabelece as condições em que os activos podem ser considerados de baixa qualidade e de muito baixa qualidade através da conjugação dos rácios acima e de outras variáveis como a concentração de riscos em relação aos fundos próprios, entre outros.

Qualidade de ActivosComposição
Rácio de Crédito Vencido Até 90 diasCrédito vencido até 90 dias/Crédito Total
Rácio de Crédito em Incumprimento (NPL)Crédito em incumprimento (com mais de 90 dias)/Crédito Total
Rácio de Cobertura do NPLProvisões para crédito em Incumprimento/Crédito em Incumprimento

Análise

  1. Antes do Estado de Emergência

Antes do EdE (no final do primeiro trimestre) os rácios de avaliação da qualidade de activos apresentavam muita variabilidade entre os diversos bancos que compõem o sistema financeiro moçambicano. Entretanto, as instituições de importância sistémica apresentavam rácios com baixa variabilidade com excepção do D-SIB2 conforme pode ser visualizado na tabela abaixo.

Qualidade de Activos em MarçoD-SIB1D-SIB2D-SIB3QD-SIB
Rácio de Crédito Vencido Até 90 dias5.75%2.48%3.95%2.86%
Rácio de Crédito em Incumprimento (NPL)5.93%20.34%1.97%2.61%
Rácio de Cobertura do NPL83.05%96.68%74.21%84.64%

Fonte: Banco de Moçambique

A tabela mostra que, em termos relativos, no que diz respeito ao Rácio de Crédito Vencido Até 90 dias o D-SIB1 apresentava o pior desempenho, enquanto o D-SIB2 apresentava o melhor desempenho (com uma amplitude de cerca de 3,27pp). Entretanto, o D-SIB2 apresentava o pior desempenho relativamente ao NPL com cifra acima dos 20% e com amplitude abismal contra o melhor classificado, o D-SIB3.

  • Depois de 3 Meses de Estado de Emergência

Decorridos 3 meses de EdE alguns bancos começaram a ver os seus rácios a deteriorarem, com particular destaque para o D-SIB1 que observou deterioração de todos seus rácios. Sendo o D-SIB a instituição de maior importância sistêmica no sector bancário estas alterações podem representar um sinal de alerta para a economia.

Qualidade de Activos em JunhoD-SIB1D-SIB2D-SIB3QD-SIB
Rácio de Crédito Vencido Até 90 dias (RCV)4.32%0.10%3.95%4.95%
Rácio de Crédito em Incumprimento (NPL)13.39%20.34%1.97%2.79%
Rácio de Cobertura do NPL41.13%84.48%74.21%82.46%

Fonte: D-SIBs

Conforme pode ser visualizado na tabela, o RCV deteriorou para o D-SIB1 e QD-SIB, tendo-se mantido no D-SIB3 sendo que o D-SIB2 é o único banco dos bancos com importância sistémica que apresenta alguma melhoria. No que diz respeito ao NPL, registou-se uma deterioração para o D-SIB1 e QD-SIB, sendo que para o D-SIB2 e D-SIB3 manteve-se constante. Por último, foi verificado que todos os bancos reduziram disponibilidades para a cobertura de NPL.

Análise Geral

Conforme ilustra o gráfico a seguir, de forma agregativa, o RCV é o único rácio de qualidade de activos que apresentou uma melhoria no período em análise (de cerca de 0.54pp). Isto está em linha com a orientação de restruturação de créditos em mora emanado do Banco de Moçambique no âmbito das medidas de política financeira/monetária para aliviar os impactos da COVID-19. Entretanto, o Rácio de NPL apresentou um agravamento na ordem dos 0.44pp sendo que o Rácio de Cobertura reduziu em mais de 17pp.

Fonte: adaptado com base em dados do Banco de Moçambique e das D-SIBs

Conclusões

A actual situação dos activos no sistema bancário inspira alguma preocupação na medida em que, não obstante as facilidades criadas pelo Banco de Moçambique, a evolução dos créditos malparados poderá afectar o nível de lucratividade dos bancos e as taxas de juro comerciais em última instância. Para além do impacto na eficiência bancária, a análise dos activos permitiu verificar que:

  • Os créditos de cobrança duvidosa estão a aumentar e já estão na banda de classificação de activos de baixa qualidade. Outrossim, se se mantiverem as condições actuais e o rácio de NPL ultrapassar os 10% poderemos estar perante um cenário de Activos de Muito Baixa Qualidade[1].
  • As disponibilidades para a cobertura de créditos mal parados estão a reduzir de forma muito acelerada ou não estão a crescer no mesmo ritmo do NPL. O nível de cobertura do NPL tem impacto na reputação institucional, resultados financeiros do banco entre outros.

Face a este cenário, mostra-se importante aprovar políticas e pacotes de apoio ao sistema financeiro com vista a melhorar o saneamento dos créditos malparados assim como permitir aos bancos a concessão de créditos com reduzido custo de contratação por forma a aumentar o nível de lucratividade.

Pela Melhoria do Ambiente de Negócios!


[1] Note que, para o posicionamento definitivo deverá ser verificado o nível de concentração de um cliente ou de pessoas correlacionadas em relação aos fundos próprios.

Por Estevão Mboana