CONFEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES ECONÓMICAS DE MOÇAMBIQUE

CONFEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES ECONÓMICAS DE MOÇAMBIQUE

TENDÊNCIAS RECENTES DO COMPORTAMENTO CAMBIAL EM MOÇAMBIQUE

TENDÊNCIAS RECENTES DO COMPORTAMENTO CAMBIAL EM MOÇAMBIQUE

O mercado tem vindo a testemunhar uma tendência de estabilização do Metical em relação ao Dólar Norte-Americano e ganhos de valor em relação ao Euro. Ultimamente, as taxas de câmbio MZN/USD e MZN/Euro tendem a se aproximar a paridade.

Esta tendência da paridade entre as taxas de câmbios MZN/USD e MZN/Euro tem suscitado muito interesse e busca de explicações. Diversos analistas têm defendido que tal deve-se a factores e dinâmicas do mercado internacional. Entretanto, embora teoricamente as explicações tenha alguma racionalidade, as mesmas pecam por não identificar o um mecanismo claro de transmissão dessas dinâmicas para o mercado interno. É claro que na Zona Euro a inflação está alta e isso, de per si, levaria a que os parceiros comerciais tivessem ganhos de competitividade e, com isso, aumentar as exportações.

Os dados mostram que no Segundo Trimestre manteve a tendência de arrefecimento no mercado cambial. As vendas de divisas dos bancos comerciais aos público em geral não registou alteração, enquanto as compras de divisas dos Bancos Comerciais (BC’s) do público registaram uma queda de 28,5%.

Paralelamente, as injecções de divisas do Banco de Moçambique (BM) aos BC’s no Mercado Cambial Interbancário (MCI) duplicaram do Primeiro Trimestre para o Segundo, enquanto as vendas dos BC’s em 33,5%. As conjugações destes dados levam a concluir que os BC’s estiveram a acumular stocks em divisas, dado que compraram mais do público, numa altura na qual o BM duplicou as injecções no MCI. Estas tendências já veem se observando desde o Segundo Trimestre de 2021 onde, de forma geral, tem se registado redução do volume total de negócio dos bancos nas operações de divisas com clientes e incremento do volume de vendas do BM, particularmente, devido a comparticipação no pagamento das facturas  de importação de combustíveis, dada a subida contínua do respectivo preço no mercado internacional.

As dinâmicas do MCI, bem como da relação entre os BC’s e os clientes, também, pode ser explicada, complementarmente, com as tendências recentes do Saldo da Balança de comercial (BC). Este saldo, registou uma deterioração de um défice estimado em USD 1 452,70 milhões para USD 4 577,30 milhões, comparando o Primeiro Semestre de 2022 com o período homólogo de 2021. Entretanto, este saldo foi grandemente influenciado pela importação da plataforma do FLNG para o projecto Coral Sul que ocorreu em Janeiro, mas que não teve nenhum impacto no mercado, apenas um registo contabilístico. Ao se retirar o valor referente a importação da plataforma do FLNG, nota-se que o défice do BC no Primeiro Semestre de 2022 registou redução relativamente ao período homólogo de 2021.

O saldo da BC em 2022, Janeiro a Junho continuou deficitário registando USD 302,30 Milhões contra um défice de USD 1 452,70 milhões no período homólogo . Aqui há sinais claros do aumento da geração de moeda estrangeira no mercado, através de exportações que cresceram em 88%, acompanhado por reduzido apetite de uso da mesma, através das importações que cresceram abaixo das exportações, registando incremento de cerca de 19%.

Esta é uma abordagem quantitativa para tentar entender e explicar as dinâmicas recentes do mercado cambial em Moçambique. Entretanto, pode-se considerar abordagem de efeitos regulatórios que possam estar a fazer sentir no mercado e que afectam o comportamento dos principais operadores.

O primeiro aspecto, tem a ver com a abertura e movimentação de contas em moeda estrangeira onde o BM introduziu novas normas. Aqui, uma norma de destaque é que as empresas que detém receita de exportação só podem convertê-la no mesmo banco onde está domiciliada a conta. Isto significa que as empresas não estão permitidas a vender as suas divisas aos outros bancos, a não ser o banco receptor da receita. As implicações desta medida é que restringem a possibilidade das empresas negociarem com outros bancos melhores taxas para a conversão das suas receitas, estando dependentes, apenas, da oferta do respectivo BC’s onde está domiciliada a conta.

Portanto, elimina as práticas do famoso shopping around1 por parte dos detentores de moeda estrangeira. Isto confere um poder negocial aos BC’s sobre os seus clientes o que contribui para a estabilidade das taxas de câmbios praticadas nas operações.

O segundo aspecto tem a ver com o respeito por estas medidas e outras emanadas pelo BM que tende a aumentar, particularmente pelos sinais enviados pela “mão dura” do regulador sobre o Standard Bank. Sendo este o maior actor no mercado cambial, a decisão do BM em suspendê-lo das operações cambiais demonstrou que não haverão meias medidas para os operadores que tiverem compliance. De alguma, isto obriga que os BC’s sejam mais exigentes na aplicação das regras e, os respectivos efeitos, se fazem sentir no mercado cambial.

Portanto, as dinâmicas recentes da taxa de cambio em Moçambique não podem ser atribuídas, directamente, ao que acontece no mercado internacional, sem a identificação clara do canal de transmissão, particularmente porque o Metical não é uma moeda transacional a nível internacional. O comportamento externo tem efeito no mercado interno através das dinâmicas do BTC, mas haverão mais razões internas do que externa para explicar este comportamento, com destaque para o papel do BM, tanto como operador no MCI, assim como regulador.

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